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O assassino quase invisível é o cumprimento de Mateus 24.8




Ganhar a guerra contra os vírus é tão impossível quanto vencer a luta contra o terrorismo. Por outro lado, não serão eles que eliminarão os humanos desse planeta. Pequenas diferenças entre as pessoas garantem a alguns uma proteção maior a certas doenças. 

Graças a essa diversidade, não existe um só vírus capaz de infectar todos os seres humanos do planeta. Por mais forte que seja a epidemia, sempre sobrarão alguns de nós para repovoar o planeta com pessoas mais resistentes à doença. Vírus quase iguais ao da gripe espanhola, que mataram milhões, até hoje circulam na população causando gripes muito menos violentas.

Mas os vírus deverão trazer cada vez mais prejuízos. Estamos modificando o ambiente e nos aproximando cada vez mais de novas espécies – seja no aquecimento global, na derrubada de florestas, na abertura de estradas ou na domesticação de animais silvestres – o que nos coloca em contato com novos reservatórios de parasitas. Essas mudanças forçam os vírus a se adaptar e, às vezes, buscar novos hospedeiros como o ser humano. 

Para completar a tragédia, a população mundial se tornou extremamente numerosa e reunida em centros urbanos. "Quando há uma grande concentração de hospedeiros, a evolução tende a favorecer vírus de ação rápida e devastadora. A nossa situação automaticamente seleciona agentes mais virulentos", diz Paul Turner. E, como a SARS provou, hoje em dia é muito fácil para um parasita pegar um avião e aparecer em outro lugar do mundo. Portanto, não fique surpreso se outras grandes epidemias se alastrarem pelo mundo nos próximos anos.

É possível aplicar golpes duros nos vírus. Podem vir a surgir, por exemplo, drogas milagrosas que derrotem variedades hoje consideradas imbatíveis. Também existem projetos de mapear os tipos de parasitas que circulam em outras espécies para saber qual é a chance de contágio humano. Além disso, podemos mudar alguns dos nossos costumes para interromper os canais de proliferação – usar preservativos ou redes contra mosquitos já resolve muita coisa. Só não podemos ter esperanças que um dia os vírus desaparecerão. Nessa guerra, o único resultado possível é o empate.

Perfil do assassino

Matar os vírus é uma tarefa complicada porque até hoje não se sabe se eles de fato têm vida. Ao contrário de bactérias, que possuem uma batelada de pequenos órgãos para produzir energia, o vírus nada mais é do que um monte de DNA e enzimas embrulhadas para presente em uma camada de proteína. Um presente de grego: para se replicar, ele precisa invadir outros seres e se apropriar dos instrumentos que eles dispõem. "Os vírus têm algumas características de seres vivos, como gerar descendentes, e não têm outras, como uma existência autônoma. Metade dos cientistas acha que são vida, metade acha que não", afirma o virologista Herman Schatzmayr, da Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz).

De qualquer forma, eles reúnem uma enorme complexidade no minúsculo espaço que ocupam. Milhares de vezes menores que uma bactéria, só podem ser vistos com potentes microscópios eletrônicos. Não se sabe como surgiram. É provável que sejam bactérias que perderam várias organelas e a capacidade de viver por conta própria ou pedaços de células que se desprenderam. O fato é que são antigos a ponto de terem interferido na evolução de quase todas as espécies. Uma prova disso veio com o mapeamento do genoma humano, quando foram encontradas seqüências genéticas de vírus escondidas no nosso DNA. "Acredita-se que esses genes não têm nenhuma função para nós, mas é possível que eles se ativem em algumas circunstâncias e tragam problemas como câncer", diz o biólogo Paul Turner, da Universidade de Yale, Estados Unidos.

De bactérias a plantas e elefantes, não existe ser vivo que esteja livre desses parasitas. Muitos tipos de vírus só atacam uma espécie. Outros, no entanto, não são tão seletivos assim. Os rotavírus – que todo anos matam em média 440 mil crianças de diarréia no mundo – passam diretamente de alguns animais para o homem. "Nunca vamos nos livrar deles. Para isso, precisaríamos adotar medidas absurdas, como vacinar todos os macacos do mundo", diz o virologista José Paulo Leite, do Laboratório de Virologia Comparada do Fiocruz.

O modo como os vírus passam de uma espécie para outra é um tema quente para os cientistas. Apesar de o mecanismo ser muito pouco compreendido, sabe-se que essa é a principal forma pela qual novas viroses chegam aos seres humanos. Supõe-se que a Aids, por exemplo, era uma doença de primatas. A SARS provavelmente veio de um tipo de gato apreciado como comida no sul da China, a região de onde surgiram todas as grandes epidemias de gripe que se conhecem. O Influenza, o principal causador da gripe, possui dezenas de variações a mais nas aves do que nos seres humanos, mas elas quase nunca nos infectam. Porcos, no entanto, são bastante suscetíveis aos parasitas das duas espécies e atuam como intermediários no contágio de influenza. Dois tipos de vírus trocam genes dentro dele e geram um nova linhagem capaz de infectar humanos. O sul da China é especialmente propício para que isso aconteça por ser um região populosa em que patos, porcos e gente vivem muito próximos.

A facilidade com que os vírus mudam e trocam genes permite que eles evoluam rápido e se multipliquem em diferentes grupos. Ninguém sabe dizer quantas doenças eles causam. O que se conhece são algumas maneiras com que eles causam tanto estrago. Uma é usurpar as funções vitais das células até que elas morram. Outra é se multiplicar dentro delas a ponto de estourá-las. Outra ainda, como no o caso das hepatites B e C e do papiloma (HPV), é mudar o material genético da célula e fazer com que ela se multiplique sem controle – entre 10% a 20% dos casos de câncer estão relacionados a vírus.

O único objetivo do vírus, no entanto, é se reproduzir. A maioria deles produz muitos descendentes em pouco tempo – causando uma forte doença – e passando para outros indivíduos antes que matem o hospedeiro ou sejam eliminados por ele. Vírus como o da herpes, no entanto, conseguem driblar as defesas imunológicas e permanecer em estado latente para o resto das nossas vidas. O truque é se esconder em células do sistema nervoso, normalmente pouco atacadas pelo sistema imunológico, e permanecer lá até que fatores como desgaste físico ou excesso de sol os façam voltar à ativa. O sucesso da estratégia é evidente – a família de vírus da herpes é extremamente antiga e espalhada na natureza. Até ostras têm herpes.

A ação do vírus


O passo-a-passo da infecção por HIV
1. A infecção começa quando uma molécula no exterior do vírus se liga a outra na superfície da célula – o receptor. No corpo humano, as células que possuem os receptores apropriados para o HIV são um tipo específico de glóbulo branco, as células-T auxiliares

2. Ao se ligar à célula, o vírus inicia uma série de reações que fazem sua superfície se fundir à da célula e jogar uma cápsula de proteína (chamada cápside) dentro dela. A cápside se desfaz e libera enzimas e material genético na forma de RNA

3. Com a ajuda da enzima transcriptase reversa, o material genético do vírus se converte de RNA para DNA, tornando-se parecido com o material genético de nossas próprias células. O estágio seguinte é ir para o núcleo

4. O DNA viral funde com o nosso graças à ação de uma enzima chamada integrase. A partir desse momento, a célula produzirá material dos vírus toda vez que tentar fazer nossas próprias proteínas

5. A protease divide as proteínas em cadeias menores, que resultam nos ingredientes do vírus. A célula, com seu maquinário dedicado à produção dos parasitas, não consegue cumprir suas funções vitais e começa a morrer

6. As partes se juntam, formam novos vírus e saem da célula. O processo é bem ineficiente. Os agentes produzidos são bastante diferentes entre si e, para cada vírus perfeito, são produzidos dezenas de defeituosos

A destruição do vírus


Novas formas de eliminar a doença
Inibidores de enzimas
São as principais drogas do atual coquetel contra a Aids. São substâncias que ocupam o mesmo lugar de enzimas como a protease e a transcriptase reversa, mas não exercem a mesma. Assim, bloqueiam a replicação do vírus em vários estágios
Bloqueadores de fusão
Substâncias que se ligam aos receptores do vírus e impedem que eles ganhem acesso ao interior da célula. Existem ainda drogas em teste que impedem a fusão da cápsula de proteína do vírus com a membrana
Moléculas Anti-sentido
São substâncias que se encaixam com precisão no RNA do vírus e impedem que eles produzam novas proteínas. É como se a molécula conseguisse "desligar" um dos genes do vírus sem danificar o resto da célula
Vacinas
Umas das novas propostas é modificar geneticamente um vírus inofensivo e dar a ele a mesma capa de proteínas do HIV. Ele estimularia defesas contra a doença sem causar infecções
Injeção de interferon
É uma substância que estimula a produção de HLA (antígeno leucocitário humano), uma proteína que vai para a membrana da célula e sinaliza para o sistema imune que a célula foi infectada
Inibidores de dedo de zinco
As moléculas da núcleocápside são mantidas juntas por substâncias chamadas "dedo de zinco". Remédios em teste conseguem inibir essa proteína e evitar que um novo vírus se forme

Tragédia contagiosa


As maiores epidemias causadas por vírus
Ano - 1519 - 1520
Doença - Varíola: a doença chega ao México e encontra nativos totalmente vulneráveis
Número estimado de mortes - 5- 8 milhões
Ano - 1918
Doença - Influenza: a gripe “espanhola” surge na Ásia e mata mais do que a Primeira Guerra Mundial
Número estimado de mortes - 20 - 40 milhões
Ano - 1968
Doença - Influenza: o vírus muda uma de suas proteínas e dá origem à gripe de Hong Kong
Número estimado de mortes - 700 mil
Ano - 1981- hoje
Doença - AIDS: transmitida sexualmente, até hoje causa cerca de 3,5 milhões de mortes por ano
Número estimado de mortes - 26 milhões

Ano - 2014
Ebola - mais de 3.000 mortes

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O vírus Ebola é transmitido por contato direto com sangue, fluídos ou tecidos de pessoas ou animais infectados. Para se ter uma noção, cabem cerca de 10.000 Ebola numa única gota de sangue. Na primeira epidemia, em 1976, no Zaire, foram 431 mortes. Nos outros principais surtos da doença, a média de mortos foi de 220 pessoas. Para a OMS, o crescimento da epidemia atual tem relação com a chegada do vírus nas áreas urbanas, onde há maior densidade demográfica.

Também há uma questão séria de falta de informação da população: uma das únicas formas de conter a doença é identificar rapidamente as pessoas infectadas e colocá-las em quarentena. Mas essa identificação não é tão fácil: a transmissão por meio de sêmen, por exemplo, pode ocorrer até sete semanas após a recuperação clínica do paciente. Além disso, quando a pessoa morre é o momento em que o vírus está mais contagioso. O problema é que existem famílias que escondem os doentes ou mantêm o cadáver por vários dias em casa. Para dificultar ainda mais, a cultura muçulmana tem a tradição de lavar os corpos dos mortos antes do enterro.

Adaptado - http://super.abril.com.br/
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Item Reviewed: O assassino quase invisível é o cumprimento de Mateus 24.8 Rating: 5 Reviewed By: Pr. Antonio Romero Filho