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Em 1.500 eram aproximadamente 10 milhões, hoje quase 400 mil


"Nosso sofrimento começou com o primeiro navio que chegou ao Brasil." -

(Wayrotsu, povo Xavante) -

Não existe consenso entre os estudiosos sobre a época de ocupação do Brasil pelos grupos humanos. Algumas pesquisas recentes, como a de Niéde Guidon, revelam que a ocupação do Brasil possui uma data muito mais antiga: foram encontrados resquícios arqueológicos (restos de fogueiras) em São Raimundo Nonato, no Piauí, que datam de 48.000 anos atrás. Outro arqueólogo, chamado Walter Neves, encontrou uma ossada humana de 12.000 anos em Lagoa Santa, Minas Gerais.

Tais informações comprovam que a presença indígena no Brasil é muito mais antiga do que a chegada dos europeus há 502 anos atrás. Portanto, não foram os portugueses que descobriram o Brasil em 1.500 como alguns livros de história nos ensinam. O que aconteceu neste período foi uma invasão progressiva das terras brasileiras.

Quantos indíos haviam em 1.500?

Não se sabe ao certo quantos povos indígenas existiam aqui na época do início da colonização, mas estima-se que antes da chegada dos europeus haviam cerca de 3,5 a 5 milhões de pessoas habitando a região que hoje é o Brasil (outras pesquisas indicam 10 milhões). Todas essas pessoas pertenciam a distintos grupos indígenas, portadores de línguas, costumes, tradições e crenças diferentes e habitavam as terras onde seus antepassados se estabeleceram. Havia uma enorme diversidade cultural entre estes povos.

O que aconteceu na colonização do Brasil foi um enorme genocídio, que dura até os dias de hoje. De acordo com o Dicionário Aurélio, genocídio é um "crime contra a humanidade, que consiste em, com o intuito de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, cometer contra ele qualquer dos atos seguintes: matar membros seus, causar-lhes grave lesão à integridade física ou mental; submeter o grupo a condições de vida capazes de o destruir fisicamente no todo ou em parte; adotar medidas que visem evitar nascimentos no seio do grupo, realizar a transferência forçada de crianças de um grupo para o outro." Todos estes atos e muitos outros foram cometidos contra as pessoas que habitavam estas terras.



O holocausto indígena


Os europeus se julgavam os donos da terra, não respeitavam a vida comunitária dos povos que aqui viviam, não aceitavam sequer que estes povos possuíam alma, por serem portadores de culturas e religiões diferentes. Frei Bartolomé de Las Casas presenciou a invasão do Brasil e registrou (em 1511) a violência praticada contra os indígenas no século XVI:

"Certa vez os índios vinham ao nosso encontro para nos receber, à distância de dez léguas de uma grande vila, com víveres e viandas delicadas e toda espécie de outras demonstrações de carinho. E tendo chegado ao lugar, deram-nos grande quantidade de peixes, de pão e de outras viandas, assim quanto tudo quanto puderam dar... Mas eis que os espanhóis passam a fio de espada, na minha presença e sem causa alguma, mais de três mil pessoas, homens, mulheres, crianças, que estavam sentadas diante de nós. Eu vi ali tão grandes crueldades que nunca nenhum homem vivo poderá ter visto semelhantes... Também na terra firme... na madrugada, estando ainda os índios a dormir com suas mulheres e filhos, os espanhóis se lançaram sobre o lugar, deitando fogo às casas, que eram comumente de palha, de sorte que queimavam todos vivos, homens, mulheres e crianças... Mataram a tantos que não se poderia contar e a outros fizeram morrer cruelmente... e a outros fizeram escravos e marcaram-nos com ferro em brasa..."


Os 100 primeiros anos de colonização

Nos cem primeiros anos de colonização o genocídio foi intensivo. Estima-se que neste período aproximadamente 70% da população indígena brasileira tenha sido eliminada. Em 1.560, Men de Sá, governador geral do Brasil, escreveu uma carta ao rei de Portugal contando com orgulho as suas façanhas na colônia: em uma noite, ele havia destruído e queimado uma aldeia próxima à vila, matado todos os indígenas que resistiram a este ataque e seu trunfo foi ter enfileirado os corpos ao longo de aproximadamente seis quilômetros de praia. E este é apenas mais um exemplo da violência que as pessoas que habitavam esta terra sofreram.

Os invasores travaram guerras contínuas e cruéis contra os indígenas. São Paulo, no séc. XVI, era um pequeno vilarejo e as expedições que se dirigiam ao interior do país eram chamadas de "bandeiras". Os bandeirantes eram pessoas especializadas em caçar e exterminar, ou escravizar os indígenas, ou quaisquer outros obstáculos que se opusessem à conquista do interior das terras brasileiras e suas riquezas. Ao mesmo tempo, as missões jesuíticas iniciaram o confinamento de povos indígenas em aldeamentos. Os indígenas confinados nestes aldeamentos não se tornavam escravos, mas eram obrigados a abandonar seu modo de vida tradicional, substituindo suas crenças e rituais pelas cerimônias e ritos católicos, além de estarem sujeitos com mais freqüência às doenças trazidas pelos não-indígenas. Em 1620 já haviam quase 30 mil indígenas vivendo nessas missões. Missões que eram atacadas e dizimadas pelos bandeirantes.


Formas de exterminar os indígenas

Algumas das técnicas de extermínio utilizadas pelos europeus consistiam em: doar alimentos contaminados com doenças (varíola, gripe, tuberculose...) contra as quais os indígenas não tinham defesa; estupros; disseminação de bebidas alcoólicas; chacinas; invasão e apropriação dos territórios indígenas; devastação do meio ambiente; confinamento nas missões religiosas; entre outras.

Os povos indígenas foram aos poucos se dando conta das intenções dos invasores de suas terras e resistiram com bravura à ocupação colonial. Os diversos povos que aqui viviam adotaram diferentes estratégias de resistência ao invasor europeu, entre elas: estabelecimento de alianças com os estrangeiros; "aceitação" à imposição de outro modelo social, guerrilhas com armas na mão, enfrentando diversas batalhas; fuga para o interior do país, ou seja, se refugiavam em regiões ainda não exploradas pelos invasores.

A resistência indígena

Os indígenas resistiram com suas armas de guerra e estratégias de sobrevivência o máximo que puderam (e ainda nos dias de hoje enfrentam desafios ameaçadores à suas vidas e culturas). Mas as armas dos europeus eram muito mais poderosas, alguns estudiosos da história indígena dizem que o Brasil foi invadido pela espada unida à cruz. A espada simbolizando as armas bélicas dos europeus que visavam explorar as riquezas desta terra e a cruz simbolizando a evangelização que era praticada pelos representantes da igreja católica (jesuítas e outras ordens religiosas) que tinham a intenção de "amansar os índios" e difundir o cristianismo.

De acordo com Bruit (1995:17), Frei Bartolomé de Las Casas visualizou o futuro da sociedade que aqui se constituía: "uma sociedade ao revés" - que já se iniciava recheada de desequilíbrios, injustiças e carente dos mais elementares direitos.
Na medida em que as terras brasileiras foram sendo invadidas pelos europeus, os indígenas foram sendo exterminados ou empurrados para regiões cada vez mais distantes. O genocídio aconteceu não apenas através das violências, massacres, maus tratos, trabalho escravo; as doenças trazidas pelos europeus, contra as quais os indígenas não tinham imunidade, também mataram milhões. Muitas nações desapareceram sem deixar sequer seu nome registrado na História.

Fonte: O mundo indígena
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Item Reviewed: Em 1.500 eram aproximadamente 10 milhões, hoje quase 400 mil Rating: 5 Reviewed By: Pr. Antonio Romero Filho