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A Teologia a serviço da Missão


O entendimento do conceito de missão pode variar entre os/as teólogos/as. Ao longo da história da Igreja a missão teve vários significados. Entretanto, para a maioria dos cristãos, principalmente para os herdeiros do "evangelicalismo" , o termo missão geralmente tem sido interpretado como uma ação da Igreja no mundo.

Cultiva-se uma dicotomia Igreja/Mundo, sendo que neste caso, o mundo seria o símbolo do que é "falso" ou "profano", enquanto que a Igreja, ao contrário do mundo, representaria uma espécie de "modelo/exemplo" a ser seguido por todos aqueles que são do mundo. Assim, nesta perspectiva, alguns/as teólogos/as, sobretudo de linha conservadora, entendem que uma das tarefas da igreja em relação ao mundo é a evangelização .

Para muitos cristãos, o termo missão pressupõe alguém que é comissionado ou enviado por alguma autoridade para executar uma determinada tarefa. Dessa forma, tanto católicos quanto protestantes, costumam atribuir a Deus a decisão de escolha daquele/a missionário/a que é enviado/a ao campo. Acredita-se que Deus, de alguma forma "sobrenatural", convoca seus/suas "escolhidos/as" preparando-os para uma determinada missão. Ainda hoje, a maioria das igrejas protestantes, em especial as igrejas evangélicas, define missão com as seguintes características: 1) o envio de missionários/as a um território específico; 2) as atividades empreendidas por tais missionários/as; 3) a área geográfica em que os/as missionários/as atuam; 4) a agência que expede os/as missionários/as; 5) o mundo não-cristão ou o campo de missão; 6) a conversão dos pagãos, etc .

Desta maneira, entende-se que Deus quer salvar os "perdidos" e que, para isto, ele comissiona pessoas para a evangelização. Neste sentido, para dar razão à missão, as igrejas evangélicas geralmente apresentam os seguintes motivos:   

1) necessidade de conversão dos perdidos enfatizada no valor da decisão e do compromisso pessoal,   

2) apressar a volta de Jesus Cristo (Parousia) a partir de uma leitura literal de Mateus 24:14. (E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim),  

3) implantação de igrejas e motivos filantrópicos .

Entretanto, nos últimos quarenta anos alguns estudos sobre missão têm apresentado outros caminhos e propostas diferentes do modelo tradicional de missão. O teólogo David Bosch, por exemplo, explica que as "reflexões sobre os motivos missionários e a meta da missão foram muitas vezes, igualmente ambíguas".          
            
Juntamente com os motivos bem intencionados da missão tradicional, foram identificados alguns problemas.

 Por exemplo:   

a) o valor da conversão tende a estreitar o reinado de Deus de modo espiritualista ao total de almas salvas;

b) a ânsia pela volta de Jesus (Parousia) às vezes contribui para uma falta de interesse nas exigências desta vida;   
  
c) as plantações de igrejas tendem a identificar a igreja com o reino de Deus, sendo que o reino é mais amplo;                         

d) o motivo filantrópico por sua vez, facilmente equipara o reinado de Deus a uma sociedade melhorada.

No âmbito da Igreja Católica, o teólogo José Comblin, parece identificar alguns problemas semelhantes aos que foram apontadas por David Bosch que merece também a atenção das demais igrejas cristãs, principalmente as igrejas oriundas do protestantismo. Assim, sobre a missão da Igreja, José Comblin levantou as seguintes questões:  
        
1) Qual a finalidade e motivações da missão?;    
   
2) como a missão se relaciona com as diversas culturas e com as grandes religiões do mundo não-cristão?;

3) A missão cristã não teria como efeito a destruição das outras religiões e das outras culturas?.

As questões levantadas por José Comblin são pertinentes também para as igrejas cristãs protestantes. De certo modo, essas considerações ultrapassam as fronteiras da Igreja. Elas fogem para o âmbito da cultura secular, da qual a Igreja também faz parte. Vê-se aqui a necessidade da Igreja repensar o conceito de evangelização.    
   
No que diz respeito ao campo da Antropologia e da Ética, a missão da Igreja entendida apenas como práticas proselitistas, poderão ter implicações sérias . Afinal, o que está em jogo não são apenas as escolhas religiosas que alguém pode fazer, mas estar antes, a possibilidade do desaparecimento de culturas, de religiões, de costumes, de idiomas, enfim, da própria história de um povo.

Assim, diante dessas implicações no campo da missão, o teólogo José Comblin apresenta a seguinte proposta:

"A missão não pode ser uma "obrigação". 
                 
Se for uma "obrigação", nunca será eficiente. Somente convencerá se ela proceder do coração dos cristãos, espontaneamente. Isso supõe que os leigos sintam o seu cristianismo não como um dever, uma obrigação para a salvação, mas uma promoção humana, uma vida melhor e mais harmoniosa. Ninguém vai propor a outros algo que não aprecia. Os primeiros cristãos se converteram por terem sentido como a vida deles havia mudado quando entraram no caminho de Jesus".

José Comblin fala de missão aqui no sentido de evangelização. É bem verdade que a evangelização faz parte também do campo da missão. Contudo, a missão não se restringe apenas a evangelização.    

É preciso distinguir entre missão (no singular) e missões (no plural).       
     
O primeiro conceito remete a missio Dei (missão de Deus). A missio Dei enuncia a boa nova de que Deus é um Deus-para as/pelas-pessoas . Deus é Aquele que ama o mundo e se envolve no/com o mundo. Neste caso, Deus é Aquele que se preocupa com o mundo inteiro, é o próprio Deus quem se revela missionário e libertador.

Neste caso, o projeto de Deus é o resgate da dignidade do ser humano, o qual teologicamente é "imagem e semelhança" do próprio Deus. Portanto, numa visão ampla da história, entende-se a missio-Dei como ação missionária do próprio Deus no mundo, para preservar e redimir a sua Criação. O resultado dessa missão é a reconciliação de pessoas e o surgimento de comunidades fraternas e solidárias que se desenvolve em torno da memória de seu Filho Jesus Cristo.

"No singular, a idéia de ?missão? continua fundamental; no plural, ?missões?, constitui um derivativo"(SANTOS, Leontino. Verbete. Missio Dei (missão de Deus . As missões (missiones ecclesiaes) designam a ação da Igreja de forma particular, relacionadas com tempos, lugares ou necessidades específicas de participação na missio Dei.  
     
Por muito tempo as missões foram entendidas de forma equivocada como simplesmente a necessidade de "salvação de almas" ou "implantações de igrejas". Contudo, o papel de salvação encontra-se na missão do Próprio Deus e não na ação da Igreja. Desta forma, a Igreja tem diante de si, em sua atividade missionária, um mundo em que a salvação de Deus se dá de maneira discreta, por meio do Espírito. A Igreja deve se engajar no tocante às realidades de injustiça social, opressão, pobreza, discriminação e violência. A igreja em missão não pode cerrar os olhos a essas realidades.

Embora hesitando em definir a complexidade da missão, David Bosch faz a seguinte conclusão que esclarece por onde a missão da igreja transita:

A missão da igreja precisa ser constantemente renovada e repensada.  

Missão não equivale à competição com outras religiões, não é atividade de conversão, de expansão da fé, de edificação do reino de Deus; tampouco é atividade social, econômica ou política. Existe, porém, mérito em todos esses projetos. A igreja se preocupa, pois, com conversão, crescimento eclesiástico, o reinado de Deus, economia, sociedade e política ? mas de um modo diferente!          
                                               
A missão é simplesmente, a participação das pessoas cristãs na missão libertadora de Jesus, apostando em um futuro que a experiência verificável parece desmentir. Ela é a boa nova do amor de Deus, encarnado no testemunho de uma comunidade, em prol do mundo.

Esta nova maneira de se pensar a missão, pode ajudar a igreja a dialogar com a sociedade. Portanto, quando se entende a dimensão e as implicações que estão envolvidas na ação evangelizadora da Igreja, vê-se então a importância do pensar a missão de forma teológica. Dessa maneira "A igreja cristã começa a ser missionária não através de sua proclamação universal do evangelho, mas através da universalidade do evangelho que ela proclama".      
                                                                          
Vê-se a necessidade de uma abertura da parte da Igreja para com o pensamento teológico. 

Aqui, a teologia poderá contribuir para que a igreja, por meio da sua ação missionária, possa fazer missões de forma construtiva. A evangelização não se passa, como se costuma pensar, pelo uso de recursos proselitistas, persuasivos, coercitivos ou interesseiros.  

A Igreja poderá ser útil para a sociedade, na medida em que esta for mais participativa nos conflitos e aflições da própria sociedade. Contudo, para isto, é necessário que a Igreja esteja aberta para as propostas que a teologia tem a fazer. Do contrário, ela permanecerá uma Igreja distante, sem sentido e presa aos seus próprios guetos e necessidades internas.

Fonte: Webartigos
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Item Reviewed: A Teologia a serviço da Missão Rating: 5 Reviewed By: Pr. Antonio Romero Filho