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As mulheres na cultura indiana


 
Não deve ser fácil, para uma mulher ocidental, viver num país cheio de crenças, superstições e rituais, onde ela, por exemplo, só pode pronunciar o nome do marido no dia do casamento e, jamais, poderá chamar sua sogra pelo nome.

Uma moça (ou menina) não pode escolher seu pretendente, pois o compromisso da união é com a casta a que pertence e não com seus sentimentos. E, para protegê-la contra a esperteza do coração, nada melhor que lhe providenciar um casamento, o quanto mais jovem possível. Por isso vemos tantas crianças viúvas, sofrendo o martírio do afastamento social.

Normalmente, a esposa vai morar na casa do marido, junto com os sogros e toda a família, servindo aos caprichos da sogra. Deve deixar suas roupas usadas para trás, levando apenas as novas. Essa é uma forma de não ficar apegada à vida anterior e levar sorte para a nova. O mais engraçado, nessa superstição, é que o marido não abre mão de coisa alguma. Trocando em miúdos: a mulher precisa se livrar do apego, mas o homem “never”. Isso que é democracia!!!

A esposa ainda deve usar o mangala (um colar que representa o compromisso de união, fidelidade, lealdade e boa sorte), assim como é um meio de mostrar que está casada. O mangala deve corresponder às nossas alianças, que pulam de uma mão para a outra.

E por falar em aliança (objeto que nunca usei), há uma razão, para mudar de uma mão para a outra. Vejamos (saindo um pouco da Índia):

1- noivos usam aliança na mão direita;

2- casados usam aliança na mão esquerda;

Como é perigoso o uso de aliança em certos tipos de trabalho, ela fica menos tempo na mão direita, passando, após o casamento, para a esquerda, uma vez que a grande maioria das pessoas é destra. Os sinistros são em número bem menor. Penso que, em razão da longevidade dos namoros e brevidade dos casamentos, essa norma deverá mudar logo…risos.

A situação da viúva é uma aberração, pois o “bendito” Código de Manu mais parece um instrumento de flagelo em sua vida. As leis embutidas em tal código dizem que, para honrar a memória do marido, uma viúva “decente” e exemplo moral para toda a família, jamais poderá conhecer o suor de outro corpo. Tem que definhar sozinha, honrando a memória do “digníssimo”, mesmo que esse tenha sido um carrasco em vida. Ela deve ser a personificação do bom exemplo, que é ser uma esposa ideal e devotada.

Mais terrível era a prática do Sati (Sutee), costume antigo, que obrigava a viúva a ser queimada na pira, junto com o corpo do marido. Esse costume teve início durante as invasões islâmicas, quando as viúvas eram queimadas com o esposo, para não se servirem ao invasor. Mas, depois, tal absurdeza passou a ser normal na vida da mulher hindu.

Mesmo que a Constituição indiana nada reze sobre a proibição de uma viúva casar-se de novo, o costume continua. A prática do Sati foi rigorosamente proibida, mas algumas mulheres, principalmente nas aldeias, ainda fogem da lei e a praticam (Eu gosto!).

Segundo certos historiadores, a prática do Sati possui algumas hipóteses:
  • o fato de o homem querer se proteger contra a mulher, com medo de ser assassinado, principalmente via envenenamento, numa sociedade onde a escolha do companheiro é feita pelos pais, ou seja, imposta, muitas vezes com uma cruel desproporção de idade (velho + criança);
  • o desinteresse da família do falecido em manter a viúva, que é vista como um peso morto para essa (ainda que ficando com todos os bens do filho morto).
Grande parte das viúvas, ainda nos dias de hoje, perde o seu prestígio dentro da sociedade hindu, passando por toda sorte de dificuldades. Ou elas ficam na casa da sogra como trastes velhos, ou na “casa das viúvas”, vivendo do que mendigam às margens do Rio Ganges. Devem usar o sari de cor branca, cuja cor só é notada, quando a viúva goza de uma boa posição (normalmente nas classes altas) junto à família, pois as esmolambadas viúvas do Ganges parecem vestir a cor cinza encardida.

Embora a atual presidenta da Índia, Prathiba Patil, seja uma viúva, as superstições, contra essas, continuam arraigadas, como dantes. A ignorância paira acima da lei.

Na Índia, existem bem mais meninos que meninas, fato raro, em quase todo o mundo. E a resposta, para quem quiser saber o porquê, está no fetocídio (retirada ou expulsão do feto, por “livre” vontade), apesar de proibido por lei (já sabemos que as leis na Índia são tão obedecidas, quanto as que vigoram no trânsito).

As famílias continuam prestigiando o nascimento do sexo masculino. Sendo uma tristeza para a linhagem o fato de ganhar só meninas (sem falar no tormento causado pela sogra).

O fetocídio agravou-se com a utilização do exame de ultra-sonografia nas mulheres grávidas, pois ficam conhecendo o sexo do bebê com antecedência. Sendo menina, os pais pedem a sua retirada aos médicos, como se tratasse de um cancro.

Mesmo nas classes mais altas, a visão é a mesma.

O fato é tão grave, a ponto de o governo do país já se preocupar com tal desproporção entre os sexos. E, como medida radical, o exame só pode ser feito em mulheres que tragam risco na gravidez. Mesmo assim, muitos médicos praticam o aborto seletivo, infringindo a lei. Nas camadas, que não podem pagar um obstetra, a criança (menina), na maioria das vezes, é jogada no Rio Ganges, logo após o nascimento.

O mais triste é saber que, em qualquer um dos casos, a decisão é tomada pelo marido, sem que a mulher possa participar, pois sua subserviência a ele não permite contestação. Quer queira ou não, terá que obedecer.

A escassez de mulheres na população indiana já está levando ao compartilhamento de esposa. É comum o irmão mais velho compartilhar sua esposa com os mais novos e com os primos.

Tem-se perguntado sobre o que é ser rechaçada, expressão muito usada na novela “Caminhos das Índias”. Significa que a mulher não será aceita por nenhum pretendente, normalmente por problemas de ordem moral. Como as famílias hindus não aprovam que os filhos fiquem solteiros, ficar encravada é uma triste sina. A vítima será humilhada por todos os entes familiares.

Até a presença de mulheres nos funerais de cremação é impedida. A justificativa é de que elas são muito frágeis na demonstração de seus sentimentos, fato que atrasa a reencarnação do falecido. Penso que elas choram mais por pensar no destino que as aguarda. E não é para chorar?

Mas, como tudo na vida possui uma janelinha positiva, a mulher é tida como a representação de Laksmi (deusa da prosperidade), por isso ela é responsável por guardar a chave do cofre. Resta saber se ela tem acesso ao cofre…

Fonte: Alma carioca-Arte e Cultura
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Item Reviewed: As mulheres na cultura indiana Rating: 5 Reviewed By: Pr. Antonio Romero Filho