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A tradução da Bíblia e o DNA transcultural da igreja cristã


Um de meus pontos de partida foi o fato esclarecedor de que havia somente entre 67 e 70 línguas que tinham porções das Escrituras traduzidas quando William Carrey chegou à Índia em 1793. Nos 40 anos seguintes ele e sua equipe em Serampore acrescentaram outras 35 a este número, recorde impressionante à luz do fracasso relativo dos 17 séculos anteriores. Procurei então descobrir como surgiu esta deficiência.      

Foi atordoante descobrir que tão poucos movimentos missionários antes da era das missões modernas tiveram êxito no alcance transcultural. O amplo fracasso em traduzir e aculturar as Escrituras foi um fracasso em levar efetivamente o evangelho através de fronteiras culturais. O resultado foi expansão espasmódica e mesmo perdas maciças do cristianismo para outras religiões e ideologias.

O primeiro missionário na China


Alopen, o primeiro grande missionário a alcançar a China, chegou a esse país em 635 e traduziu a Bíblia em chinês para o imperador Kao-tsu, simpatizante que se sentiu muito atraído pela mensagem do cristianismo e proclamou um decreto de liberdade religiosa em 638 para permitir o estabelecimento da igreja cristã na China.     

Seguiram-se 200 anos de liberdade para cristãos e budistas, que chegaram à China mais ou menos ao mesmo tempo. Um dos grandes “e se?” da história: e se os chineses tivessem adotado o cristianismo em vez do budismo? Seis séculos depois outro imperador poderoso enviou uma frota de 800 navios gigantescos de madeira (as maiores embarcações de madeira já construídas) e 30.000 pessoas para cartografarem e criar relações comerciais com todas as partes do mundo (ver 1421, the year China discovered America [1421, ano em que a China descobriu os Estados Unidos da América]).  

Nesse tempo eles tinham os recursos e o conhecimento necessários para isto (como medir longitude, como evitar a morte dos marinheiros por escorbuto, como usar armas de fogo e pólvora). O extraordinário é que este custoso esforço afetou tão seriamente a economia da China que levou à supressão de todas as evidências destas explorações logo após o retorno do que restou da frota. O Ocidente só conheceu esta tecnologia no século XVIII, e isto permitiu que o capitão Cook cartografasse o Pacífico. E se tivesse sido uma China cristã que embarcasse em tal aventura? Que diferente o mundo teria sido!

Sempre houve uma minoria sob o governo dos persas zoroastristas, dos mongóis chamanistas, chineses taoístas, e, sobretudo, o islã dos árabes e mais tarde o terrível Tamerlão, o mongol muçulmano. Nenhum corpo de cristãos sofreu por mais tempo nem com maior freqüência pela perseguição e por períodos de terríveis massacres. Em seu período de maior abrangência, em 1349, a igreja do oriente tinha 25 metropolitanos e 250 bispos, e possivelmente 15 milhões de cristãos em mais de 25 etnias na Ásia ocidental, central e oriental.    

A população cristã da Ásia pode ter sido de aproximadamente 7%, cifra que só vem sendo superada agora, em tempos modernos, devido ao crescimento maciço da igreja na Índia, China, etc. Duas gerações depois de 1350, massacres ferozes de cristãos reduziram esta igreja a uma sombra de seu tamanho anterior, e a um declínio que continua com a perseguição que ocorre ainda hoje contra os cristãos no Iraque.

Seus pontos fortes estavam em sua aprendizagem, em seu conhecimento das Escrituras, na disposição para adaptar-se a outras culturas, em sua coragem sob perseguição e resistência, e em sua disposição de viajar distâncias gigantescas por amor do evangelho. Suas fraquezas possivelmente estavam em um pouco de sincretismo, e, em anos posteriores, na carnalidade, cobiça e busca de poder entre seus líderes, e numa dependência exagerada de governantes não-cristãos ocasionais que mostraram simpatia ou apoiaram aos cristãos; e ainda, na não-tradução da Bíblia em mais que umas poucas línguas. Em sua maior parte, levaram consigo suas Escrituras e liturgia siríacas. Por séculos e até milênios, no caso dos cristãos de Tomé na Índia, eles usaram a língua siríaca, mas sobreviveram.

O preço de não prover as Escrituras


Um dos aspectos mais instrutivos desta última fraqueza é dar-se conta de que através dos séculos os povos que mais perseguiram aos cristãos foram aqueles que foram evangelizados, mas nunca tiveram as Escrituras em sua própria língua. Os hunos, árabes, berberes, curdos, persas, turcos, mongóis, todos ouviram algo do evangelho e alguns o aceitaram, mas estes povos mais adiante se converteram em um açoite da igreja cristã. Alguns deles se tornaram nomes de clãs aterradores para os cristãos, tais como os uigures, que mais tarde se tornaram parte da Horda Dourada Mongol, e de quem se deriva a palavra “ogro”. Considere:

1. Árabes. Houve cristãos entre os árabes por cinco ou mais séculos antes da chegada do islã, mas em geral o cristianismo era visto como uma religião dos gregos dominantes do noroeste da Arábia, dos persas do nordeste e oeste da Arábia, e dos etíopes do sul da Arábia. As Escritura e liturgia utilizadas (note as implicações para a oralidade - Ed.) não estavam em árabe. Maomé morreu em 632, mas a Bíblia só foi traduzida em árabe entre 680 e 750. Quão diferente nosso mundo poderia ter sido se Maomé tivesse conhecido o conteúdo da Bíblia em árabe?

2. Persas. A igreja do Oriente gradualmente causou impacto na Pérsia zoroastrista, e quando ocorreu a invasão muçulmana de 636 o cristianismo estava a ponto de converter-se na religião majoritária; mas, embora essencialmente houvesse uma igreja persa, ainda usavam a liturgia e as Escrituras siríacas. As Escrituras persas pahlavi foram traduzidas por volta de 1350, um milênio mais tarde, e perto da época quando Tamerlão, o governante tártaro-muçulmano da Pérsia, começou seu rompante pela Ásia central e ocidental para destruir a todos os cristãos. Até hoje o governo islâmico do Irã tenta evitar o uso do persa nos cultos de adoração cristãos, porque não é o idioma cristão.

3. Berberes do norte da África. A igreja do norte da África era uma das mais fortes nos primeiros séculos, mas funcionava em latim, não nas línguas berberes. As Escrituras não foram traduzidas até o século XX. Os árabes dizem que foram necessárias 10 guerras contra eles para finalmente torná-los muçulmanos. Porque o cristianismo não estava aculturado, e sem documentos escritos nos seus idiomas nativos, os berberes perderam todas as lembranças de sua herança cristã. Os berberes tuareg ainda praticam cerimônias e usam a cruz que eram originalmente cristãos, mas não sabem o significado nem a origem destes. Os berberes mouros chegaram a ser um dos principais componentes dos exércitos islâmicos que conquistaram a maioria da Espanha e a governaram por 800 anos. Depois da tradução das Escrituras em kabyle (idioma berbere da Argélia), e do redescobrimento de como os árabes e o islã violaram sua cultura, houve nos últimos 20 anos uma impressionante volta a Deus entre eles, e seu número talvez tenha alcançado 50.000 crentes.

4. Turcos. Algumas tribos turcas da Ásia central chegaram a ser parcialmente ou quase completamente cristãs nestorianas por vários séculos. Tinham só pequenas porções das Escrituras, e finalmente se converteram ao islã. Houve terríveis resultados para o Ocidente: a conquista do império romano cristão bizantino entre 1071 e 1253, e a invasão da Europa oriental e central nos séculos subseqüentes. O império turco foi uma superpotência por 800 anos.

5. Mongóis. Algumas tribos mongóis tinham minorias cristãs antes do tempo de Gengis Khan. Na verdade, o próprio Gengis Khan se casou com a filha de um Khan nominalmente cristão da tribo kerait, mas os mongóis se tornaram budistas no oriente e muçulmanos no ocidente de seu gigantesco império. Há pouca evidência de algum escrito cristão em mongol.

O inverso disto aconteceu em qualquer lugar onde um impulso missionário resultou em uma tradução das Escrituras logo no início, e com a absorção de seu conteúdo na cultura, a luz do evangelho raramente foi extinta mesmo quando surgiu terrível perseguição, como por exemplo entre armênios, georgianos, coptos do Egito, etíopes e russos.

Lições a serem aprendidas desta história


1. O DNA que Deus criou para a igreja é o alcance transcultural. Qualquer corpo de cristãos que ignora isto aflige ao Espírito Santo, e abre a porta para a mortandade espiritual e finalmente o declínio para outro sistema de crença ou de descrença. O comprometimento em obedecer a Grande Comissão não é um opcional a mais, mas é fundamental para a saúde e o crescimento da igreja cristã.

2. A tradução e aculturação das Escrituras em toda língua onde há uma resposta ao evangelho é um requisito prévio fundamental para a permanência do cristianismo através de muitas gerações. Note o diagrama em anexo que mostra como o desenvolvimento progressivo dos comandos da Grande Comissão trabalha em conjunto com a aculturação e o uso das Escrituras. Em tempos modernos isto requer que se dê prioridade à tradução da Bíblia e aos programas de alfabetização para todas as culturas que não têm as Escrituras em sua língua do coração.

3. O uso de línguas e Escrituras litúrgicas através de muitas culturas e por múltiplos séculos, tais como o latim, grego, siríaco e eslavo, provê a continuidade de cultos cerimoniais impressionantes na igreja, mas prejudica a transmissão das verdades que contêm, e acelera a nominalização e até a eliminação do cristianismo onde não se entende esta língua. Nestes tempos modernos o inglês se tornou um dos idiomas mais desejados para a comunicação, a educação e a Internet, mas isto traz seus perigos: um imperialismo e insensibilidade cultural, uma crença de que aprender outra língua não é necessário, uma expectativa de que os nativos aprendam ou entendam inglês, e uma esperança de que as equipes iniciadoras de igrejas possam, em breves visitas e utilizando o inglês, evitar a necessidade de enviar missionários com ministério de longa duração.

4. Uma cultura cristã dominante raramente tem a paixão para adaptar seu estilo de adoração e cultura ao dos povos minoritários, ou aos que consideram inferiores. Por isso os que não são da Rússia podem evangelizar mais facilmente às minorias étnicas russas, os missionários não- ocidentais aos emigrantes na Europa moderna, e os asiáticos aos muçulmanos no Oriente Médio, do que os missionários ocidentais.

5. A importância de que um povo exiba orgulhosamente sua própria versão da Bíblia não pode ser subestimada para a preservação e o avanço de sua cultura. Isto foi verdade para os armênios, godos, georgianos e etíopes, que por muito tempo foram cristãos. É igualmente verdade para os curdos no Oriente Médio, os kabyles da Argélia, os konkomba de Gana e os quéchuas do Peru e do Equador. O século XXI possivelmente verá a extinção de 2000 idiomas. O preventivo mais efetivo para isto é a tradução e o uso das Escrituras. Isto dá mais peso à visão 2025 da Wycliffe Bible Translators e demais agências bíblicas, de iniciar o trabalho de tradução em todas as línguas que atualmente não têm a Bíblia, e cujos falantes a desejam. Estas provavelmente incluem entre 1500 e 2000 línguas. As áreas do mundo que consistem os maiores desafios, com muitos destes idiomas, são o Sahel da África, a Índia, as minorias da China, e parte da Indonésia.

6. Os missionários são freqüentemente acusados de “destruir culturas”. O século XX demonstrou que na verdade foram os missionários que preservaram e enobreceram as culturas onde se traduziram as Escrituras. Foram a insensibilidade, a cobiça, e a degradação ecológica de soldados, comerciantes, madeireiros e cartéis de drogas que causaram os danos. Sem a tradução da Bíblia muitos idiomas e culturas desaparecerão. Muitas culturas onde o evangelho foi pregado mas não têm as Escrituras serão anêmicas e sem um núcleo cristão forte integrado em suas vidas corporativas.

Ao encarar os desafios do ministério do século XXI, a tradução da Bíblia e a assimilação de suas verdades salvadoras e santificadoras em todas as culturas do mundo e o equipamento das igrejas locais para proclamar e praticar estas verdades devem ser nossa primeira prioridade ministerial. No passo que temos ido na iniciação de equipes em línguas que não têm a Bíblia, a tarefa ainda não terá terminado até o fim do século XXI. Levantemo-nos e terminemos a tarefa!


Fonte: 
                 

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