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A triste história não contada da rua Azuza - "O pentecostalismo e o racismo"


E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões. E também sobre os servos e sobre as servas naqueles dias derramarei o meu Espírito. (Joel 2.28-29)

A linha de cor foi lavada pelo Sangue de Jesus (William J. Seymour)

O pentecostalismo moderno surgiu em janeiro de 1901. Nos Estados Unidos, o metodista Charles Fox Parham, pregador da Santidade do Meio-Oeste americano, convocou seus alunos para pesquisar sobre o Espírito Santo no livro de Atos dos Apóstolos. Parham havia montado uma escola teológica em uma antiga mansão de Topeka (Kansas, EUA). Nesse instituto, todos se dedicavam diariamente a estudos e orações.     
   
Mediante esses estudos, os alunos com o professor Parham concluíram que a glossolalia era uma evidência física do “batismo no Espírito Santo”, sendo uma experiência pós-conversão. Então, no dia primeiro de janeiro de 1901, uma jovem chamada Agnes Ozman começou a falar em línguas. O seminário de Parham tinha em média quarenta alunos.

O pentecostalismo se populariza em abril de 1906. 

O pregador leigo e negro William Joseph Seymour assistia as aulas de Charles Fox Parham pela porta da sala de aula.

 Devido às leis segregacionistas, Seymour não podia sentar entre os brancos. Seymour começou a reproduzir as ideias aprendidas no seminário de Parham. O grupo de Seymour se reunia na Bonnie Brae Street, em Los Angeles, como o espaço era pequeno, Seymour e o seu grupo começaram a se reunir em um velho prédio da Azuza Street, também em Los Angeles.

Os cultos da igreja em Azuza Street reuniam centenas de pessoas, brancos e negros, que bem antes do Rev. Martin Luther King, estavam juntos em uma união incomum numa sociedade altamente segregacionista. 
    
Não só os negros tinham espaço, como também as mulheres exerciam liderança e ainda pregavam. William Seymour era um homem de carisma, e ele na Azuza Street Mission popularizou o pentecostalismo para todo o mundo, quebrando barreiras de preconceitos.

Logo no início, Seymour e o seu grupo chamaram a atenção da imprensa. O jornal da cidade de Los Angeles, Daily Times, publicou uma reportagem de primeira página sobre a Azuza Street Mission, no dia 18 de abril de 1906.  

O jornal Los Angeles Times mandou um repórter no dia 17 de abril [1], ou seja, na primeira semana da missão. Um repórter de um jornal local escreveu em setembro de 1906:

"Uma vergonhosa mistura de raças (...) eles clamavam e faziam grande barulho o dia inteiro e noite adentro. Essas pessoas parecem loucas, com problemas mentais ou enfeitiçadas. Elas têm um caolho, analfabeto e negro como seu pregador que fica de joelhos a maior parte do tempo com a sua cabeça escondida entre engradados de leite feitos de madeira. Não fala muito, mas às vezes pode ser ouvido gritando “Arrependei-vos” (...) Elas cantam repetidamente a mesma canção “O Consolador Chegou”.

Os primeiros pentecostais não eram bem vistos pela sociedade americana, tanto por protestantes tradicionais, tais como por grupo seculares. A divergência não girava somente em questões doutrinárias, mas também em relação ao forte preconceito racial.  
   
As práticas místicas e a visão sobrenaturalista do grupo espantaram a sociedade. O líder William J. Seymour não enxergava as pessoas na base de raças, mas todos como filhos de Deus.  

Um conceito um tanto revolucionário, que lembra grandes homens, como o líder negro abolicionista do século XIX, Frederick Douglas, que já desprezava a separação dos homens por meio de raças e usava sempre as Escrituras nessa defesa. Douglas discursou no dia da independência americana de 1852, dizendo:

Os EUA são falsos com o passado, falsos com o presente e solenemente se consagram a serem falsos com o futuro. Nesta ocasião, ao lado de Deus e do oprimido e ensangüentado escravo, eu ousarei- em nome da humanidade que é ultrajada, em nome da liberdade que é acorrentada, em nome da Constituição e da Bíblia, que são desprezadas e iludidas- a desafiar e denunciar, como toda a ênfase que posso reunir, tudo o que serve para perpetuar a escravidão- o grande pecado e vergonha dos EUA.

Frederick Douglas recebeu votos de um delegado do Partido Republicano para ser candidato a presidência dos EUA, isso em 1888 [3]. Depois de Douglas, não é exagero falar que Seymour provocou tanta revolução quanto, porém um pouco mais restrito ao âmbito religioso de Los Angeles.

Retrocesso

No decorrer do tempo, o pentecostalismo americano deixou de lado o seu aspecto pós-racial e pluricultural, para se fechar em guetos negros versus guetos brancos. 

Os pentecostais negros e pobres, normalmente se associaram a Igreja de Deus em Cristo, enquanto os pentecostais brancos de classe média congregavam nas Assembleias de Deus. Isso nos EUA, pois no Brasil não existiu problemas de segregacionismo.

Charles Fox Parham foi constantemente acusado de racismo. Por esse motivo, ele caiu no esquecimento e se distanciou do Movimento que ajudou a criar. 
   
Quando Parham morreu em 1929, ele era um quase desconhecido das igrejas pentecostais. Muitos pastores se desligaram de Parham e depois estavam entre os fundadores das Assembleias de Deus em 1914.

O segregacionismo então só aumentou. De um lado os negros na Igreja Deus em Cristo, do outro os brancos nas Assembleias de Deus.  

Esse processo foi um grande retrocesso no pentecostalismo pós-racial de William Seymour, que sempre afirmava que a “linha da cor foi lavada pelo Sangue de Jesus”. Quando a Pentecostal Fellowship of North America foi fundada na década de 1960, a negra Igreja de Deus em Cristo não estava entre as convidadas.

“O milagre de Memphis”

Em 1994, na cidade de Memphis no Tennessee (EUA), a Pentecostal Fellowship of North America, uma instituição que igrejas brancas, foi substituída por uma nova instituição chamada Pentecostal/ Charismatic Churches of North America (PCCNA). 

Nesse novo grupo, o primeiro presidente eleito foi o bispo Ithiel Clemmons, da Igreja de Deus em Cristo. Os líderes da Assembleia de Deus rejeitaram o passado racista da denominação e um pastor branco assembleiano lavou os pés do bispo Clemmons. 
   
Então, retribuindo o gesto, o bispo negro Charles Blake da Igreja de Deus em Cristo lavou os pés de Thomas Trask, então superintendente- geral das Assembleias de Deus nos EUA. 
  
Toda a cerimônia aconteceu debaixo de muito choro e louvor. Certamente um capítulo triste da história pentecostal foi riscado no mês de outubro de 1994.

Fonte: Teologia Pentecostal



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Item Reviewed: A triste história não contada da rua Azuza - "O pentecostalismo e o racismo" Rating: 5 Reviewed By: Pr. Antonio Romero Filho