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Terra de gigantes

Logo no início de Deuteronômio, há referência a outros povos gigantes de Canaã, encontrados na trajetória na região de Amom e Moabe: “(Antigamente os emins habitavam nessa terra; eram um povo forte e numeroso, alto como os enaquins. Como os enaquins, eles também eram considerados refains, mas os moabitas os chamavam emins. Também em Seir antigamente habitavam os horeus. Mas os descendentes de Esaú os expulsaram e os exterminaram e se estabeleceram no seu lugar, tal como Israel fez com a terra que o Senhor lhe deu.)” e “(Essa região também era considerada terra dos refains, que ali habitaram no passado. Os amonitas os chamavam zanzumins. Eram fortes, numerosos e altos como os enaquins. O Senhor os exterminou, e os amonitas os expulsaram e se estabeleceram em seu lugar. O Senhor fez o mesmo em favor dos descendentes de Esaú que vivem em Seir, quando exterminou os horeus diante deles. Os descendentes de Esaú os expulsaram e se estabeleceram em seu lugar até hoje. Foi o que também aconteceu aos aveus, que viviam em povoados próximos de Gaza; os caftoritas, vindos de Caftor, os destruíram e se estabeleceram em seu lugar.) (Dt 2.10-12, 20-23)


Merecem destaque também os refains, termo muitas vezes traduzido por gigantes (que não deve ser confundido com “as sombras dos mortos” [Is 26.14, e.g.]), citados em Deuteronômio 3.13, Josué 12.4 e 13.12. Ogue, rei de Basã, é descrito como um sobrevivente dos refains; sua cama era de ferro e media 4 metros de comprimento por 1,8 metros de largura (Dt 3.11). Por várias vezes, o texto bíblico menciona o vale de Refaim (Js 15.8; 18.16; 2Sm 5.18,22; 2Sm 23.13; 1Cr 11.15, 14.9; Is 17.5), possivelmente associado a este povo de alta estatura.

Textos que descrevem a época da monarquia também citam gigantes. O mais conhecido caso é o do filisteu Golias, o célebre adversário de Davi. A descrição impressiona: “Um guerreiro chamado Golias, que era de Gate, veio do acampamento fi listeu. Tinha dois metros e noventa centímetros de altura. Ele usava um capacete de bronze e vestia uma couraça de escamas de bronze que pesava sessenta quilos; nas pernas usava caneleiras de bronze e tinha um dardo de bronze pendurado nas costas. A haste de sua lança era parecida com uma lançadeira de tecelão, e sua ponta de ferro pesava sete quilos e duzentos gramas. Seu escudeiro ia à frente dele.” (1Sm 17.4-7). Outro caso interessante é a descrição dos combates entre israelitas e gigantes: “Houve, ainda, outra batalha entre os fi listeus e Israel; Davi e seus soldados foram lutar contra os fi listeus. Davi se cansou muito, e Isbi-Benobe, descendente de Rafa, prometeu matar Davi. (A ponta de bronze da lança de Isbi-Benobe pesava três quilos e seiscentos gramas, e, além disso, ele estava armado com uma espada nova.) ... Houve depois outra batalha contra os fi listeus, em Gobe. Naquela ocasião Sibecai, de Husate, matou Safe, um dos descendentes de Rafa. Noutra batalha contra os filisteus em Gobe, Elanã, fi lho de Jaaré-Oregim, de Belém, matou Golias, de Gate, que possuía uma lança cuja haste parecia uma lançadeira de tecelão. Noutra batalha, em Gate, havia um homem de grande estatura e que tinha seis dedos em cada mão e seis dedos em cada pé, vinte e quatro dedos ao todo. Ele também era descendente de Rafa, e desafi ou Israel, mas Jônatas, fi lho de Siméia, irmão de Davi, o matou. Esses quatro eram descendentes de Rafa, em Gate, e foram mortos por Davi e seus soldados. (2Sm 21.15-20)

A descrição dos gigantes não deve ser motivo de muito alvoroço. Além de ser comum encontrarmos pessoas com 2 metros de altura, principalmente na Holanda e na África oriental, muitos são os casos de gigantes contemporâneos. O mais recente foi o ucraniano Leonid Stadnik, com seus 2,53m de altura. Em 1940, nos EUA morreu Robert Pershing Wadlow, que media 2,72m de altura (quase um Golias!).

As descrições bíblicas não distoam tanto do que presenciamos hoje. Todavia, o maior problema, este sim, um problema gigante, é a origem dos gigantes. Essa discussão, não raras vezes, faz referência ao conhecido texto de Gênesis 6.1-4: “Quando os homens começaram a multiplicar-se na terra e lhes nasceram fi lhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram bonitas, e escolheram para si aquelas que lhes agradaram. Então disse o Senhor: “Por causa da perversidade do homem, meu Espírito não contenderá com ele para sempre; ele só viverá cento e vinte anos”. Naqueles dias havia nefilins na terra, e também posteriormente, quando os fi lhos de Deus possuíram as filhas dos homens e elas lhes deram filhos. Eles foram os heróis do passado, homens famosos.”


A discussão sobre o assunto decorre da palavra nefi lins, muitas vezes traduzida por gigantes. Essa tradição tem origem na Septuaginta, que assim traduziu para o grego a palavra hebraica. Todavia, a tradução não é precisa. Nefi lins signifi ca literalmente “caídos”, embora a palavra em Números 13.33 tenha o sentido de gigantes, conforme o contexto aponta. No entanto, parece improvável que o mesmo texto bíblico que afirma que a terra foi destruída pelo Dilúvio, o que inclui os nefilins, queira sugerir que os demais gigantes de Canaã tenha relação com os mencionados em Gênesis 6. Não se deve forçar tal relação. Portanto, esse texto que aponta a causa do Dilúvio não deve ser associado aos outros.

Mas a pergunta permanece: quem eram os nefilins? O texto parece complicar nossa curiosidade. Gênesis parece indicar que eles surgiram do intercurso entre “os filhos de Deus” e “as filhas dos homens”. A grande discussão ocorre em torno da identidade dos “filhos de Deus”. Uma primeira sugestão, pouco convincente, entende que é uma referência à linhagem de Sete, em oposição à linhagem de Caim. A idéia é que os justos (filhos de Deus – Sete) casaramse com mulheres ímpias (filhas dos homens – Caim), misturando a semente santa com o mal, trazendo decadência moral para o mundo antigo, provocando a ira divina, o Dilúvio. É pouco provável que o texto de Gênesis que tanto menciona Caim precisasse de uma linguagem tão hermética para se referir a ele. Além disso, é estranho imaginar que só houvesse moças bonitas entre as fi lhas de Caim. A hipótese é cada vez mais abandonada.


Outra sugestão, muito defendida hoje em dia, afi rma que os “filhos de Deus” eram anjos! Argumenta-se que a expressão signifi ca anjos em todo o Antigo Testamento. Sem dúvida, tanto beney ’elohim como beney ’el, parecem indicar principalmente anjos. Isso pode ser verifi cado em Jó 1.6; 2.1 e 38.7. Todavia, em Salmo 29.1 e 89.6, há controvérsias se a expressão significa necessariamente anjos. A idéia a expressão hebraica é “filhos fortes ou poderosos”, o que pode se referir a anjos ou a pessoas de poder. Todavia, no Novo Testamento Judas 6,7 parece corroborar a idéia: “E, quanto aos anjos que não conservaram suas posições de autoridade, mas abandonaram sua própria morada, ele os tem guardado em trevas, presos com correntes eternas para o juízo do grande Dia. De modo semelhante a estes, Sodoma e Gomorra e as cidades em redor se entregaram à imoralidade e a relações sexuais antinaturais. Estando sob o castigo do fogo eterno, elas servem de exemplo.” Parece que os anjos pecaram de maneira semelhante à Sodoma e Gomorra. Portanto, pensa-se que os anjos terriam copulado com as mulheres e acabaram gerando uma raça de gigantes, o que causou o Dilúvio.

Os problemas dessa sugestão são gigantescos: 1. Anjos não são conhecidos por sua capacidade de intercurso. Eles não se casam e não procriam (Mt 22.40). 2. Cada espécie da criação tem os seus limites genéticos. Casamento e procriação de espécies distintas parece muita imaginação (Gn 1.21-25). 3. Em nenhum lugar, o texto de Gênesis se refere a uma raça híbrida como causa do Dilúvio. Fala-se em perversidade, corrupção e violência dos seres humanos (Gn 6.5,11-13).

Como devemos entender então o enigmático texto de Gênesis 6? Uma terceira possibilidade é que “os filhos de Deus” seja uma referência a “homens poderosos”. Isso estaria de acordo com a linhagem de seus descendentes “heróis do passado, homens famosos” (v. 4). Estes “poderosos” teriam coabitado com as mulheres e gerado os homens famosos da antigüidade. Em que isso seria extraordinário? Onde está a conexão com a causa do Dilúvio?

A resposta está no plural “filhas dos homens”. A questão é poligamia! Surgiram os primeiros haréns da antigüidade. Essa decadência moral teria trazido o Dilúvio sobre a terra. Isso parece estar de acordo com a lógica do “aprofundamento da queda em Gênesis”.

* Parte do estudo - Rosangela Ferris - 02/06/2011 - Blog Angels
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